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Robôs e fios de porcelana (o texto não é sobre eletrônica)


Recentemente, fui contratado para escrever uma matéria em homenagem ao parceiro de uma empresa que desencarnara dias atrás. Nesse tipo de redação, é preciso trazer informações a respeito da vida e do legado do falecido com um tom solene, mas que nem por isso deixe de conter emoção. O contratante me enviou um texto que deveria servir de base para meu trabalho. Tive a nítida sensação de que fora redigido por inteligência artificial.


Eram linhas quadradas, frias, completamente nuas de informações relevantes. Do ponto de vista emocional, digo. Ortograficamente, ok, sem maiores observações. No entanto, era uma redação desprovida de alma. Claro que puxo a brasa para minha sardinha, enfim, redigir é meu ganha-pão. Ou boa parte dele. Tentei, porém, sinceramente, deixar o preconceito (e a concorrência) de lado para analisar o texto do suposto robô. Quer saber? Fraco!


Pois bem, seguia eu com a leitura diária de um informativo via e-mail (newsletter, para os menos incomodados com anglicismos) quando me deparo com a seguinte nota patrocinada: “Crie posts profissionais em segundos, com IA! Já imaginou criar conteúdo para newsletters, blogs, Twitter e LinkedIn com apenas alguns cliques? Basta responder algumas perguntinhas e pronto. Os seus seguidores vão achar que você contratou um redator particular!”.


Estão vendo onde a coisa está chegando? Os robôs estão de fato querendo ciscar no meu terreiro. Muitos incautos vão contratar esse serviço e, sem noção do que seja um texto de verdade (e observe o duplo sentido dessa frase), acharão ótimo pagar para um computador fazer seus textinhos quadradinhos e sem graça, que estamparão seus perfis igualmente quadradinhos e sem graça. A comunicação segue sendo cada vez mais pasteurizada.


Pois então vou tomar banho e observo no box os produtos de cabelo da minha amada. “Fios de porcelana”, promete um. Sensacional! “Meu cronograma perfeito”, oferece outro. Bom também. “Iluminador de fios”, garante um terceiro. Tentador. “Efeito Primer”, exagera mais um. Nem sei o que é, mas já quero! Imagine quantos fios de cabelo os redatores perderam bolando frases criativas para vender mais produtos que justamente cuidam (ou deveriam cuidar) da saúde dos cabelos.


Vai o desafio, portanto, senhor robô: crie um slogan melhor que “fios de porcelana” para um xampu. Ou condicionador, sei lá. Duvi-de-o-dó! Nem cabelo você tem para seguir um cronograma perfeito, utilizando o efeito primer, que na verdade é um iluminador de fios. Se bem que nem eu. Deixa pra lá...


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