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Pela 1ª vez, senti que posso ser vítima de preconceito


Meu primeiro contato com a palavra “etarismo” é bastante recente. Fomos, eu e Dani, a São Paulo para comemorar o aniversário da Catarina, nossa filha mais velha, que lá está morando. Sempre nos demos bem com os amigos da Cacá. Quando ela promove encontros na nossa casa, colocamo-nos nas rodas de conversa dos jovens e, entre cervejas, gins, camparis e petiscos, conversamos e nos divertimos juntos.


O mesmo acontece quando vamos a São Paulo. Sempre fomos muito recebidos pela turma que divide o apartamento com a Cacá e também por aqueles que têm o privilégio de compartilhar esta existência com nossa filha. Pois bem. Era janeiro e o lugar escolhido para a comemoração do aniversário foi um bar bem alternativo. Deu para ir a pé, juntos, eu e Dani, cinquentões, e aquela linda galera.


O bar, instalado num casarão antigo, era cheio de cartazes protestando contra as mais diversas formas de preconceito. Etarismo, inclusive. Foi então que conheci essa palavra, que designa discriminação por conta da idade. Pela primeira vez na vida, eu, homem branco, heterossexual, percebi que também poderia ser vítima de preconceito. Mas não naquele bar, que reúne alegremente representantes das mais diversas tribos. Apesar de uma chuva torrencial, a noite foi deliciosa.


Constatei com a Dani que éramos os mais velhos do lugar. Ninguém mais parece ter dado atenção a isso. Todo mundo conversou, riu, cantou, confraternizou-se, independentemente de idade ou qualquer outra característica física, social ou sexual. A noite terminou com um animado bate-papo no apartamento da Catarina. E fui dormir rejuvenescido, grato por ter tido um acolhimento tão caloroso.


Acolhimento a que não teve direito a caloura de Biomedicina da faculdade Unisagrado, de Bauru, vítima de preconceito de algumas colegas por ter ingressado no ensino superior aos 45 anos. Que pena que essas moças, que acabaram, por vergonha, desistindo do curso, não souberam aproveitar a chance de escutar as histórias de uma “bixete” que deve ter muitas para contar. Aí incluída a de que teve coragem para fazer faculdade com mais de quatro décadas de vida.


Que ela não desista de seu sonho. Se antes ter 40, 50, 60 anos era ser velho, hoje deve ser só a continuação natural da vida. Fases que, cada uma a seu tempo, criam oportunidades para que se conciliem a sabedoria da experiência com a vontade de continuar vivendo, tentando, acertando e errando. Divertindo-se, trabalhando, estudando, amando. Sendo.

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