Crônica: Quem mandou a dona Carmela subir na árvore?



Na minha cabeça, o Joe Cocker sempre cantou: “I’ve changed my heart.”. Algo como “Eu mudei meu coração”. Essa letra sempre me soou límpida, cristalina. Eis que, recentemente, a lendária canção tocou numa rádio que eu ouvia por um aplicativo no celular. Na tela, aparece o título da faixa – ainda pode falar “faixa”? – que está sendo executada naquele momento. Foi então que percebi que a vida toda cantei errado. “Unchain My Heart”, ou “desacorrente meu coração”, é o correto.


Sinceramente, prefiro a minha versão, mas duvido que o velho Joe Cocker ou Bobby Sharp, o compositor, estejam onde estiverem agora, concordem comigo. A arte é viva, Joe! Sorry, Bobby. Partindo desse episódio, lembrei-me de outro, bem mais antigo. Eu ainda era criança e uma das nossas vizinhas era a dona Carmela, velhinha que, não tenho certeza, era italiana. Ou filha de italianos, enfim, não importa. Só sei que ela, sem saber, causava-me enorme comoção por causa de uma marchinha de Carnaval. Calma que vou explicar.


Todo mundo conhece “A Jardineira”, certo? Foi composta por Humberto Porto e Benedito Lacerda em 1938 e gravada por Orlando Silva no Carnaval de 1939. Eu nem sonhava em nascer nessa época, mas antes as marchinhas carnavalescas passavam de geração a geração. E os versos “Oh, jardineira, por que estás tão triste? /Mas o que foi que te aconteceu? /Foi a camélia que caiu do galho /Deu dois suspiros e depois morreu” estão na memória de todo mundo que já adentrou a faixa etária dos “enta”.


Pois então. Na minha interpretação, quando eu devia ter 6 ou 7 anos, era a Carmela quem caía do galho. “Foi a Carmela quem caiu do galho, deu dois suspiros”... Ficava só imaginando a cena da nossa vizinha, corcoveada pela idade, despencando de um galho e se estatelando no chão. Num último sopro de vida, daria seu par de suspiros derradeiros, e então seguiria rumo ao céu. Pobre dona Carmela! Que infelicidade! Mas também, o que uma senhora de nem sei quantos anos tinha que inventar de subir sabe-se lá em que árvore? Só podia dar nisso mesmo.


Acredito que todos nós temos histórias para contar de letras que passamos a vida inteira cantando errado. "Na madrugada, a vitrola rolando um blues, trocando de biquíni sem parar". "Eu queria ser uma abelha pra pousar na tua flor. A de amor, a de amor". "Entrei de caiaque no navio". "Meu namoro é na folia, mulher de fases". Uma pesquisadinha na internet e você vai encontrar centenas de confusões, algumas delas bem engraçadas.


Corre na minha família a lenda de que, quando um dos meus irmãos era pequeno, rolava uma brincadeira em que alguém propunha uma palavra e os outros tinham que cantar uma música em que ela aparecia. Meu irmão mandou “U-hu”. Todo mundo quebrou a cabeça, mas ninguém conseguiu acertar. Então ele, com o semblante triunfante da vitória, cantarolou: “Mamãe eu quero, u-hu, mamãe eu quero, u-hu, mamãe eu quero mamar”. Não sei se é verdade, mas a história é tão saborosa que gosto de acreditar nela.