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O caminhoneiro João Elói, sua amada Guadalupe e a tempestade em Miracema do NorteMarcos Paulino


Por Marcos Paulino




Um céu de chumbo parecia repousar sobre a pacata cidade de Miracema do Norte. No interior das nuvens plúmbeas, porém, a atividade era intensa. Toneladas de água iriam ser despejadas em instantes sobre o lúgubre lugarejo, com suas casinhas tingidas de cores pálidas apinhadas sobre os morros que desenham sua geografia. Ao volante de seu caminhão, João Elói se aproximava pela acanhada rodovia temeroso.


O caminhoneiro perdera seu melhor amigo, que lhe prometera o filho nascituro como afilhado, numa curva na beira da estrada, quando a carreta em que estavam se chocou com outra, consequência da chuva fina que molhava a pista. João Elói ainda conseguira segurar o companheiro de luta pela vida e pelo pão nos braços, mas o traiçoeiro destino tinha seus planos. Naquele momento, o último suspiro do amigo lhe trouxe a certeza de que as viagens intermináveis de poeira e chão, mas também de muita alegria, seriam apenas parte do passado.


Vida que segue, João Elói batizou o filho do companheiro de tantas jornadas, como prometera enquanto ele desfalecia sob suas lágrimas. A vida nas estradas, todavia, se trouxe tristeza, providenciou também uma grata surpresa. Foi num posto à beira da vicinal que leva a Miracema do Norte que conheceu, servindo café, aquela que seria a mulher de sua vida, Guadalupe. Amaram-se no primeiro instante. Juraram-se dividir a existência eterna. E se prometeram que realizariam, juntos, o sonho de conhecer Nova York.


Depois de semanas sem ver a amada Guadalupe, João Elói deslizou por milhas e milhas com seus longos cabelos a rolar ao vento para tê-la novamente em seus braços. Era como se voasse nas nuvens, lembrando da namorada a acariciá-lo com a mão macia sobre o dragão que traz tatuado no peito. “Vou te buscar”, prometia a ela, em seus pensamentos. Um raio riscou de alto a baixo o céu de Miracema do Norte e fez o caminhoneiro voltar à realidade.


O estrondo do trovão que se seguiu à luminosidade foi o prenúncio da tempestade que desabou com vontade. A água vertia das nuvens como se quisesse lavar as entranhas da pequena cidade, revolvendo seus dramas, suas histórias, sua alma. O vento assoviava alto, balançando os casebres, que se agarravam tenuamente aos morros, numa iminente queda muitos metros abaixo. Um fio de suor escorreu pela têmpora de João Elói. Resquício do trauma que a chuva lhe obrigava a reviver.


Ele sintonizou então a Rádio Atividade, que emitia suas ondas a partir do município vizinho, e soube que a água começara a subir pelas ruas de Miracema, após o transbordamento do rio que corta a cidade. Acelerou incontinenti seu caminhão a tempo de atravessar a ponte antes que fosse levada pela força da correnteza. Avistou a casa de Guadalupe sob a enchente e tremeu por dentro. Mais uma vez, a chuva queria determinar seu destino.


Desceu da boleia, mergulhou naquela água fria e escura, mas nada via. Entretanto, uma energia que emanava de algum ponto o atraiu. Seguiu-a. Sentiu então que algo lhe apertava o pulso esquerdo. Reconheceu o anel que dera a Guadalupe e a puxou com força. Deu-lhe um beijo de príncipe e a fez recobrar seus sentidos. Desta vez, não! Era seu grito para a chuva. Tirou a amada da água, colocou-a no caminhão e prometeu nunca mais deixá-la.

Não sei por que eu fui dizer bye-bye, pensava consigo, enquanto Guadalupe abria seus lindos olhos castanhos, da cor da tempestade que agora se afastava. Abraçados e ensopados, João Elói e Guadalupe driblaram aquela curva do destino. E ali, ao lado do pinheiro onde se beijaram pela primeira vez, selaram definitivamente sua eterna união. Não sem antes reafirmarem o sonho de conhecer Nova York.

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