Expressões tratadas com requintes de crueldade


Há algumas expressões que, de tão manjadas, a gente vai repetindo sem nem prestar muita atenção aos elementos que as formam. Utilizadas nos noticiários, nas fofocas entre vizinhos, nas conversas de bar, incorporaram-se de tal forma ao nosso dia a dia que nem nos damos mais conta de como são frequentes em nossos diálogos. Ranzinza, implico com elas a ponto de evitá-las, principalmente em textos. Sei lá, acho que empobrecem a prosa. Vejamos algumas.


LEDO ENGANO – Alguma vez você já usou o adjetivo “ledo” sem ser com o substantivo “engano”? Sabe, pelo menos, o que ele significa? Pois agora vai saber. Derivada do latim, a palavra “ledo” quer dizer “alegre”, “risonho”. Portanto, se alguém comete um “ledo engano”, supõe-se que errou sem malícia, sem maldade, sem intenção.


REQUINTES DE CRUELDADE – Esta expressão é uma queridinha dos jornalistas que cobrem assuntos policiais. Sempre que a vítima sofre muito nas mãos de um criminoso, pode esperar que a notícia informe que ela foi morta com “requintes de crueldade”. Não sei quem inventou essa expressão, mas é cruel que a criatividade dos colegas jornalistas não encontre uma substituta para ela.


FORTEMENTE ARMADOS – Outra expressão muito recorrente no jornalismo policial. Sempre que os bandidos portam armas mais potentes que os três-oitões enferrujados, os repórteres dizem que um bando “fortemente armado” realizou o crime. Há outros advérbios para expressar intensidade, mas o danado do “fortemente” parece que está casado com “armados” para todo sempre.


ÓBVIO ULULANTE – Expressão que dá nome a um livro de Nelson Rodrigues, foi cunhada pelo autor no início dos anos 50 e caiu no gosto do povo. Mais uma vez: já ouviu alguém falar “ululante” sem ser junto de “óbvio”? Pois saiba que as duas, juntas, licenças poéticas à parte, podem ser considerados até uma redundância. “Ululante” significa algo “evidente”, “excessivamente claro”, ou seja, “óbvio”.


NA FACE DA TERRA – Esta é um caso de implicância pessoal mesmo. “Não existe ninguém, na face da Terra, que jogue futebol tão bem quanto Messi”. Isso abre uma possibilidade: algum jogador que more nas profundezas do nosso planeta pode ser melhor que o argentino. Como imaginamos que ninguém habite as entranhas desta bola azul, por que usar “face”? Não poderia ser apenas “na Terra”?


E você, com quais expressões implica? Ou com quais implicações se expressa?