Crônica: Seres humanos em versão mais econômica


Você sabe o que é uma colecistectomia. Não, né? Eu também não sabia. Pesquisei no Google. Trata-se de um procedimento cirúrgico para retirada da vesícula biliar. Funciona assim. Você está levando sua vida tranquilamente e de repente sente alguma coisa diferente. Pode ser uma dor do lado direito da barriga, por exemplo. Vai ao médico e ele diz que o problema é com sua vesícula, um órgão que, até então, você só conhecia de ouvir falar.


Dependendo do estado da dita cuja, que pode estar cheia de pedras, o doutor vai recomendar que você retire esse pequeno órgão de dentro do seu corpo e o devolva ao éter universal. Sim, sua vesícula voltará ao pó antes do resto do invólucro que abriga sua alma. E aí o prestativo especialista te explica que não, não tem problema nenhum em viver sem uma vesícula. Mas se essa coisinha não tem utilidade significativa, por que está dentro do nosso organismo?


Na verdade, para não desmerecer a vesícula biliar, é preciso dizer que ela tem lá suas funções. Se você, como eu, for curioso e recorrer ao oráculo Google, sempre ele, irá entender para que serve. Eu é que não vou ficar aqui dando aula grátis. Enfim, o médico que jogará sua vesícula na lata do lixo dirá que a única diferença daquele momento em diante é que sua digestão de comidas gordurosas não será assim tão eficiente como outrora.


A essa altura, você deve estar pensando que retirei minha vesícula. Que nada! Ela continua comigo e, espero, será enterrada juntamente com meus outros órgãos, pelos quais, por motivos óbvios, tenho um apreço especial. Inclusive pela vesícula biliar, que tem um nome bastante sonoro e gostoso de pronunciar. Porém, como pessoas próximas a mim já retiraram suas vesículas porque estavam um caco, despertou-me o pensamento sobre o porquê de termos algumas peças com as quais fomos equipados, aparentemente, com a única função de um dia dar problema. E a gente que lute, enquanto os médicos lucram.


Caso clássico de órgão com pouca – ou nenhuma – serventia é o apêndice. Pelo menos é essa visão que a gente tinha dele, um mero restolho de sua época áurea, em que deveria ter uma nobre atividade. Mas eis que, há alguns anos, cientistas descobriram que o apêndice é uma espécie de depósito de bactérias que ajudam na digestão. Vai saber. Até outro dia, a gente só lembrava desse pedaço do corpo quando ele inflamava e dava um problema danado. Se tivermos de fato sido injustos com o apêndice, devemos décadas de desculpas a ele.


Ocorre-me também o cóccix, que ostenta um nome que considero uma maravilha da engenharia etimológica. Como sempre digo: três cês, um xis e um acento numa palavra de apenas seis letras deveriam render um prêmio a quem a inventou. Pois bem, além de ter um belo nome, para que serve o cóccix? Apenas para doer bastante quando você, desafortunadamente, toma um tombo e cai de bunda. Antes das nádegas, às vezes, esse resquício de osso da cauda que um dia tivemos chega ao chão, e você descarrega todo seu repertório de palavrões.


Enfim, vesícula, apêndice, cóccix... Talvez gerações futuras venham sem esses equipamentos de série, numa versão mais econômica do ser humano. Para tristeza dos médicos.