Crônica: EI, JUDE, TRABALHE! NÃO QUERO SER EXTINTO


Já estou me afeiçoando a ela. Resolvi que se chamará Jude, como aquela da canção dos Beatles. Espero que goste do nome. E agora percebo a correlação entre as coisas. A banda The Beatles foi batizada com inspiração em beetle, ou besouro em inglês. Foi o Lennon quem sugeriu o trocadilho usando beat, que quer dizer batida ou ritmo. Jude não é um besouro, é uma abelha. Mas ambos são insetos e assim fica tudo em família. E então noto como gastei um parágrafo inteiro em elucubrações desnecessárias.

Voltemos ao tema. Jude é um marimbondo. Talvez uma vespa. Nunca sei a diferença. É grande, preta. E já faz vários dias que decidiu que o pote de água da Mel, a nossa cachorra, seria sua piscina. Problema nenhum. Ou melhor, apenas um, e dos grandes: Jude não sabe nadar. Sim, ela é péssima nadadora. Sua inabilidade aquática, somada às bordas inclinadas e escorregadias do pote, traz um sério risco à sua vida, como ela já pôde comprovar na prática. Diversas vezes.

Jude, entretanto, é teimosa. Não, vamos chamar de resiliente, para ficar num adjetivo que está na moda. Resiliente e inconsequente. A primeira vez que a vi se debatendo na água, com as asas para baixo, despertou a minha compaixão. Estendi-lhe uma vassoura, que ela agarrou com força, e a retirei do pote. Encostei a vassoura na parede e ela se apressou a se secar, tarefa fácil pelo calor escaldante dos últimos dias. Bateu as asas tão rápido que nem deu para vê-las. E logo voou tomando rumo incerto e ignorado.

Fiquei feliz pela minha boa ação. Salvei uma vida e, de quebra, contribuí para a sobrevivência da espécie humana. Isso mesmo! O excesso de agrotóxicos nas lavouras está acabando com as abelhas, esses pequenos seres que ajudam as flores a trocar pólen. Esse mecanismo é fundamental para a manutenção de muitas espécies, a nossa incluída. Sem os polinizadores, haveria tamanha queda na produção de alimentos, dizem os especialistas, que aconteceria uma extinção em cadeia. Desastre que chegaria, sem dúvida, aos seres humanos. Se você não sabia, agora já sabe.

Pois bem, como eu dizia, estava lá, felizão, por ter salvado a vida da Jude. Mas de repente me deparo com a renitente abelha novamente dentro do pote de água. Fiquei intrigado. Não teria ela aprendido a lição? Não, não aprendeu. Repeti o procedimento com a vassoura, e mais uma vez a Jude ganhou os ares. Porém, ela está decidida a enfrentar os perigos que meios líquidos lhe trazem. Frequenta o pote em vários horários e cai dentro dele com uma frequência assustadora. Já até variei o modo de salvá-la, jogando a água, Jude nela incluída, na nossa hortinha. Nada.

É só virar as costas e lá está a abelha no exercício sem fim de arriscar a própria vida. Agora há pouco fui conferir e adivinha? Jude no pote! Sei lá se eu estou interferindo no destino dela, mas, se depender de mim, ela vai sobreviver, querendo ou não. Abelhas são conhecidas como trabalhadoras incansáveis, e não é possível que justo a minha só queira saber de nadar. Nada disso! Ela que cumpra sua missão de espalhar pólen por aí. A humanidade não é grande coisa, mas eu faço parte dela e não quero ser extinto. É como diz a frase inicial da canção dos Beatles: "Ei, Jude, não piore as coisas".

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