Crônica: SOBRE PESSOAS QUE APENAS SENTEM. AQUI. AGORA


Graças a Deus que ele é ateu. Essas palavras, jogadas assim, fora de contexto, ficam estranhas. Talvez nem tanto para quem tenha ouvido falar de Luis Buñuel (1900-1983), controverso cineasta espanhol naturalizado mexicano. A ele, é atribuída a frase “Sou ateu, graças a Deus”. Mas não se quer aqui falar de cinema, nem nada parecido. É que lembrei dessa provocação do Buñuel ao escutar a sentença que abre estas linhas, dita por uma colega de um grupo de estudos.

Colocando ordem na casa. Nesse grupo, nossa coordenadora, pessoa bastante espiritualizada, contou que seu marido é ateu convicto. Eles vivem muito bem assim, um respeitando a opção do outro. Diz ela que seu marido argumenta que falta espaço em sua mente para religião. Apenas isso. Não a critica por passar horas vendo filmes e documentários ou lendo livros de temas que ela aprecia e estuda, muitos deles ligados às suas convicções sobre a vida nesta Terra. E o que nos espera depois dela. E o que vivemos antes dela.

Tão pouco ela se importa se o marido não compartilha de sua fé. Cada um, no relacionamento, segue o rumo que considera adequado quando o assunto é religião. Essa minha colega contou algo, numa de nossas reuniões, que me impressionou. Revelou que seu marido não pestaneja quando alguém bate à sua porta pedindo comida. Convida para entrar e se juntar a ele numa refeição. Ela mesma fica pouco à vontade com a situação. Desconfia. E quem não? Ele não. Compartilha a comida e a atenção com o vivente necessitado.

Achei sensacional. Sendo ateu, ele não faz o bem esperando uma recompensa. Não imagina ganhar pontos numa próxima fase da existência. Não aspira conquistar mais alguns tijolinhos para sua escada rumo ao céu. Não fica na expectativa de que Deus está vendo como ele é bom. Apenas faz o que acha que é certo. Sua preocupação é somente com uma pessoa que, no aqui e no agora, precisa de ajuda. Precisa tanto que pede. E, convenhamos, não é nada fácil engolir o orgulho e pedir um prato de comida.

Conheço gente que faz sopa para moradores de rua. Que ajuda famílias necessitadas com até mais do que poderia. Que se doa das mais diversas formas para levar conforto a quem sofre. Botar um pedinte para dentro de casa, porém, é para bem poucos. Comentei sobre isso, o que levou a algumas considerações dos outros integrantes do grupo. A maioria delas seguiu a linha de que é preciso coragem para abrir a porta de casa para um estranho que se diz faminto. Foi então que uma colega sentenciou: “Graças a Deus que ele é ateu”.

A frase reverberou na minha mente. E ainda reverbera. É irônica. E tão profunda quando se dispõe a pensar nela. Chego à conclusão de que algumas pessoas são tão plenas da presença de Deus, que nem precisam acreditar nele. Simplesmente sentem. Enquanto nos apegamos a dogmas, crenças, convicções, vivências, opiniões, elas apenas se deixam levar pela energia que nos mantém vivos. Vivem o momento. E, neste momento, não suportam ver um irmão sofrer. E há recompensa maior que acabar com o sofrimento de alguém? Aqui. Agora.

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