Crônica: LIÇÕES APRENDIDAS ONDE MENOS SE ESPERA


A cena é clichê, eu sei. Guarde sua maldadezinha. Mas é tão recheada de simbolismo, ainda mais nesta época de baixo astral pandêmico, que fica difícil resistir a descrevê-la. Não resistirei. Ela se passou enquanto eu observava determinado ponto do jardim da minha casa, onde tenho passado quase todo o meu tempo nos últimos meses. E, após período tão longo na minha humilde residência, normal que comece a notar detalhes para além do que a correria do dia a dia permite.

Aliás, se essa pandemia vai me deixar uma lição, é de que, sinceramente, a gente corre mais do que a vida de fato exige. Sem precisar levar filho para escola, ir até o escritório, participar de reuniões presenciais – e mesmo fazer atividades de que gosto bastante –, tem sobrado tempo para buscar mais paz interior. Descobri meditações, podcasts, leituras e outros conteúdos que ajudam a levar mais equilíbrio para minha atropelada mente. Admito, divago.

Então voltemos à cena inicial, que ainda nem descrevi. Desculpe, a falta de conversa nos bares da vida deve ter me deixado mais prolixo na escrita. Alguma compensação, por certo. Enfim, vamos aos fatos. Como cachorros não sabem utilizar o vaso sanitário, natural que façam suas necessidades na grama. E um monte de respeito se ergueu por sobre o gramado, um tanto seco pela falta de chuvas típica do inverno nesta parte do planeta onde vivo.

Interessante notar como um bolo fecal canino, que tanto desgosto nos traz quando inadvertidamente nele pisamos, é encarado de forma totalmente diferente por outros seres que não humanos. Formigas, sem nenhum pudor, costumam passear contentes pelas fezes. Moscas consideram esses excrementos verdadeiros oásis de nutrientes para as larvas que nascerão dos ovos neles botados. Abelhas, não raro, também são vistas cutucando blocos de cocô plantados no quintal pelos cães.

Mas o que me chamou mesmo a atenção foi uma pequena borboleta, de asas brancas com delicados grafismos em preto e vermelho, levemente pousada num desses montes. Fazia, tranquila, sua refeição. Sem se abalar com minha inoportuna curiosidade, sugava a seiva com a longa língua. E, ao abrir as asas, mostrou tons de azul e violeta que eu não imaginava ver. Bonitas por fora, suas asinhas eram ainda mais belas no ton sur ton escondido do lado de dentro.

Aquele cocô, que tanto asco pode causar a alguns, tornou-se fonte de alimento para um ser de ímpar beleza. Um retrato vivo, como que a dizer: não se desespere se a cena é feia, porque, dela, sempre se pode extrair algo de bom. Considerei essa prosaica imagem que a natureza me proporcionou um sinal. Por pior que tudo pareça, há certamente outro ponto de vista a ser levado em conta. De barriguinha cheia, a pequena borboleta se foi, voando repleta de energia, e dando, para mim, novo sentido a um monte de cocô.

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