Crônica: NINGUÉM QUER COMPREENDER, SÓ RESPONDER


Deparei-me, por acaso (se é que o acaso de fato existe), com esta frase: “O maior problema de comunicação é que não ouvimos para compreender, ouvimos para responder”. Isso! Veio exatamente ao encontro do que penso. Você nem bem terminou de falar ou escrever e já tem alguém, que nem bem ouviu ou leu, doido para dar a sua opinião. Enfim, o assunto não é novo, mas se une a um trecho de um livro que estou relendo da Louise Hay (1926-2017), considerada uma das fundadoras do gênero literário que ficou conhecido como de “autoajuda”.

Diz a autora que não entende como os alunos são obrigados a gastar energia decorando datas de batalhas. Eu acrescentaria: memorizando fórmulas que nunca vamos usar, fazendo contas de que nunca iremos precisar, guardando regras disso e daquilo que, na prática, pouco, ou nada, acrescentarão nas nossas vidas. Louise morreu sonhando que, no ensino fundamental, os estudantes pudessem ter acesso a temas do tipo: "Como a mente funciona", "Como investir dinheiro para obter segurança financeira", "Como ser pais", "Como criar bons relacionamentos", "Como criar e manter a autoestima e a autovalorização".

É o que sempre pensei. Você sai da escola com a mente entulhada de informações que nunca lhe serão úteis, mas sem ter ideia de como lidar com sua própria mente, com seu dinheiro, com os filhos que terá um dia. Isso tudo, a gente tem que procurar ajuda “por fora” para aprender. Ou é a própria vida, por meio das pessoas que coloca ao nosso redor, que vai tratar de nos ensinar, pelo amor ou pela dor, como as coisas que de fato importam funcionam. E se a gente não aprende as lições direito, faremos o quê? Ensinaremos errado também.

Se seus pais são exemplo de companheirismo e de uma feliz cumplicidade, se tratam bem os filhos, se ensinam a ter amor próprio, a enfrentar as dificuldades sabendo que há com quem contar e tudo o mais que é preciso para seguir em frente confiante, que bom! E mesmo tudo isso não é garantia, óbvio, de absoluta felicidade, que, aliás, desconfio que não exista. Mas e quem teve como exemplo um lar em que os relacionamentos se desmancham em brigas, egoísmos, falsidades, futilidades e problemas sem fim, que lições leva para a vida?

Deixar o passado no passado é uma luta constante, bem sei. A dor também nos traz grandes ensinamentos, concordo. Mas o sofrimento poderia ser bem menor, e aí volto ao início, se todos escutássemos mais (e tivéssemos conteúdo útil para escutar) e parássemos de nem tentar conter a impaciência para vomitar nossas “verdades”. Precisamos, em algum momento, começar a formar pessoas que, primeiro, sejam boas para elas próprias, para, aí sim, estarem preparadas para se doar melhor aos outros.

Precisamos de gente mais preocupada com a mente e menos com o corpo. Mais atenta ao que realmente é necessário em nossas vidas, e não com perfumaria. Mais consciente de que ter dinheiro é muito bom, desde que possamos usá-lo para ser mais felizes, e não para ostentar. Mais focada em curtir de verdade os bons momentos, em vez de só pensar em fotografá-los para as redes sociais. Que abra a boca somente quando tem algo a dizer. Até porque já sabemos: tem muito mais gente querendo responder do que compreender.

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