Crônica: EVOLUÍMOS PARA O ANALFABETISMO DE REDE SOCIAL


Sabe aquelas pessoas que ficam tão ansiosas para dar suas opiniões que nem te deixam terminar a sua primeiro? Que ficam abrindo a boca numa ameaça contínua de te interromper a qualquer momento? Que mal respiram enquanto (não) ouvem o que você tem a dizer? Então, agora temos a versão virtual desses afobados verborrágicos. Talvez sejam os mesmos na vida física e na internet. Devem ser. Você mal acabou de postar seu raciocínio sobre qualquer assunto e já tem alguém dando o contra.

Tudo bem, opinião é como boca, cada um tem a sua. Mas vamos combinar que é preciso pelo menos ler, ouvir ou assistir com um mínimo de atenção o que o outro tem a dizer para então analisarmos se estamos a favor ou contra. Nossa conhecidíssima falta de capacidade para interpretar conteúdos ganhou contornos gigantes com a internet. Fiz uma crônica propondo, de forma bastante irônica, o debate sobre se alimentos veganos deveriam ser batizados com nomes que lembrassem seus correspondentes destinados a carnívoros.

Comecei o texto brincando que o assunto tinha potencial para disparar uma guerra global. Achei que era evidência suficiente de que se tratava, de fato, de uma inocente provocação. Não era. Adeptos do veganismo me atiraram pedras. Um disse que o objetivo verdadeiro era fugir da discussão sobre se podemos comer defuntos ou não. E por aí foi. Até tentei argumentar com um ou outro que a proposta era apenas caçoar do fato de que perdemos muito tempo discutindo, inutilmente, temas sobre os quais nunca chegaremos a um consenso.

Desisti. Cheguei à conclusão de que, se vai mexer em alguns vespeiros, conforme-se em tomar ferroadas. Mesmo que sejam desferidas por quem simplesmente não entendeu bulhufas do que você disse. Ao menor sinal de que talvez tenha a ferida cutucada, a fera ruge alto para mostrar quem manda naquele território. Bastava ler o texto com serenidade ou paciência, que entenderia perfeitamente. Bom, pelo menos teria mais chances de compreender o argumento.

Se o fulano acha que você, de algum modo, vai chegar a um lugar que desabone, por exemplo, seu político de estimação, já se arma das pedras mais pontudas que encontrar para ameaçá-lo. Tenta desabonar seu argumento sem nem ao menos refletir sobre ele. A falta de atenção ao conteúdo, porém, vai além dos assuntos polêmicos. Quem trabalha com produção de informação sabe muito bem do que estou falando.

Você faz um material para divulgar, digamos, um evento. Nele, informa do que se trata, data, horário, local e valores dos ingressos. Mal postou e já vem um comentário: quando vai ser? Pacientemente, você responde. Valor? Sim, desse jeito, seco. Caramba, não é mais fácil ler o conteúdo do que ficar perguntando o que já foi dito? Parece que não. O analfabetismo funcional deu origem a uma forma mais alinhada com os novos tempos: analfabetismo de rede social.

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