Crônica: NO PAÍS DO CALA A BOCA, O POVO TAPA A BOCA


O desejar profundo de que a imprensa cale a boca não é exclusivo do nosso presidente. Via de regra, os governantes gostariam muito que os órgãos de comunicação permanecessem calados. A não ser, claro, que fosse para exaltar seus feitos. Lula, certamente, adoraria que a imprensa não tivesse revelado as suspeitas reformas do tríplex do Guarujá ou do sítio em Atibaia. Em qualquer época, todo chefe de Executivo municipal, estadual ou federal, não tenho dúvidas, passou por vários momentos em que apreciaria muito que a imprensa calasse a boca.

Afinal, como pregava Millôr Fernandes, “Imprensa é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”. Sim. “A Semana do Presidente”, do “Programa Silvio Santos”, não pode ser considerado um exemplo de jornalismo, se é que você me entende. A verdade muitas vezes dói e, em outras tantas, atrapalha (ou revela) alguns planos. Sendo assim, ter o poder de mandar a imprensa ficar quieta seria bastante adequado para uma enorme parcela dos ocupantes de cargos públicos.

Infelizmente para eles, felizmente para o povo, não é assim que a coisa funciona. Pelo menos não numa democracia. A imprensa livre e digna vai investigar, checar e, se for o caso, vai denunciar desvios, de caráter e bens materiais, cometidos pelos governantes. Gostem eles ou não. Nosso atual presidente inova ao ir ao seu cercadinho e ser, digamos, explícito ao manifestar seu desejo de que a imprensa se cale. Na verdade, militar, ele imagina que ordens devem ser obedecidas e pronto.

Acredito, porém, que está descobrindo, de forma dolorida, que não vivemos todos num quartel. Ele deveria ter percebido isso quando constatou que, na vida civil, a hierarquia pode ser subvertida e um capitão se tornar chefe de um general. Ou de vários generais. Mas não parece. Ao incentivar ataques a jornais, rádios e emissoras de TV e tentar desqualificar cada jornalista que ousa dizer a verdade, o presidente apenas prega para convertidos. Boa parte de seus eleitores já descobriu que isso pode ser uma tática de jogo, mas não a única.

Entretanto, como aqui já dito – e tirando o deprimente espetáculo do cala a boca público –, o embate governo versus imprensa não foi descoberto agora nem vai terminar após esse mandato. Saudável até que seja assim, visto que todos têm direito à defesa. Pede-se apenas aos governantes, como qualquer pai ou mãe pediria aos seus filhinhos mimados, que tenham bons modos. Pelo menos na frente das visitas. Fazer birra e espernear no corredor do mercado porque quer um brinquedo caro nunca pega bem, nem para a criança nem para os zelosos papais.

Vale, por fim, uma reflexão. Num país que está se tornando o epicentro da pandemia de coronavírus, em boa parte reflexo da irresponsável forma como nosso mandatário-mor tratou o assunto, ver a população tapando a boca com máscaras não deixa de ser emblemático. No quesito cala a boca, parece que o vírus tão menosprezado pelo presidente foi muito mais eficiente que ele.

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